
O homem conduziu os tecidos encharcados e o corpo frio da mocinha para dentro de seu quarto, trazia-a em seus braços nus enquanto o vestido vermelho molhava a sua roupa. Deixou a garota próxima da cama - foi soltando, soltando, como se lhe doesse ter de solta-la por um instante que fosse - e voltou para fechar a porta. Apenas enquanto ele voltava para perto da garota foi que ele notou que sua camisa de tão molhada grudava-lhe no corpo. A mocinha também percebeu isto, e logo tentou se desculpar, mas apenas tentou, pois mal pronunciara a primeira silaba e dois dedos pousaram-lhe por sobre os lábios, selando-os - então se calou.
Seus corpos estavam muito próximos, a respiração de um confundia-se com a do outro, seus olhares se cruzavam, se perdiam e se encontravam. Ela, que ainda sentia frio dentro de seu vestido, sentiu as mãos do homem deslizarem em sua cintura abraçando-a uma outra vez e trazendo-na para junto de seu corpo. Ele colocou seu rosto junto ao da garota, ela fechou os olhos e entregou-se ao encontro sublime de seus lábios em um beijo - que pareceu-lhe ultrapassar as barreiras do tempo marcado nos ponteiros de um relógio de bolso - foi um beijo quente, terno, nobre. Abraçavam-se com carinho - a garota descansava umas de suas mãos num dos braços do rapaz enquanto a outra afagava-lhe os cabelos; e o rapaz, com uma de suas mãos a segurava firme pela cintura enquanto a outra fazia alguns passeios tímidos pelas suas costas.
Ele parou de beija-la e a abraçou, levando suas duas mãos até o alto de suas costas e abrindo, inexperientemente, o fecho do vestido vermelho. Assim que o vestido caiu todo aos pés da moça, o homem, com sua expressão imutável e quase majestosa, segurou num ato cavalheiro uma das mãos dela, a fim de ajudá-la a sair do meio dos tecidos. E ela o fez, deixando ali mesmo os sapatos.
Ainda chovia lá fora e a lua ainda tentava se livrar das nuvens que cobriam-lhe o fulgor de seu semblante, de modo que no quarto, além da escuridão, havia apenas uma tímida luz cinérea.
Ele soltou delicadamente a mão da mocinha e pegou em sua cama um lençol, e com ele envolveu o lindo e alvo corpo nu de sua garota - na verdade, ela trajava apenas uma peça de roupa que cobria-lhe a virilha, apenas isto, e mais nada. O homem segurou-a pelos ombros e deu-lhe mais um beijo, e depois conduziu-a até a cama e ela sentou-se com os pés descalços sobre o colchão ainda coberta pelo lençol. Ela sentiu os lábios do homem beijar-lhe a testa, e depois o viu afastar-se até um canto escuro do quarto, onde não conseguia o ver muito bem. Mas o viu voltar, sem camisa, com uma calça seca e os pés descalços, ele se aproximou e ajoelhou-se ao lado dela na cama, olhou-a nos olhos e depois debruçou-se na beira do colchão escondendo o rosto. Ela, com certo receio, descansou sua mão nos cabelos do rapaz - eram tão macios.
"Por muito tempo eu fiquei só, e me esqueci de como era ter alguém ao meu lado. Eu não tenho passado, e nunca esperei nada do futuro, apenas vivia o presente enquanto ele se permitia durar. Não lembro-me de como ou quando fiquei sozinho, não sei nem mesmo o meu nome; nunca me perguntaram, nunca me chamaram... Ele foi ficando e ficando para trás, como todas as outras coisas que se dizem ao meu respeito, até que tudo se perdeu na minha memória. Eu não sei lidar com sentimentos, e para ser sincero eu havia até me esquecido que eles existiam, ou pelo menos o que cada um deles quer dizer. Eu não sou muito bom nisso, e não sei se já fui alguma vez... Mas, quando você caiu em meus braços hoje eu me senti estranho, pela primeira vez eu tinha alguém ali, preenchendo um vazio que eu nem sabia que existia, e de repente eu vi como todos os dias que eu venho vivendo têm sido vagos desde eu não sei quando. Você trouxe em seu perfume um sentimento que eu não sei explicar, é como todas as coisas juntas, eu não sei... Eu queria morrer ali mesmo, pois as coisas que falou para mim naquela tarde me valeram a vida, e eu sentia como se eu tivesse chego ao cume de onde se deve chegar, ao ápice. E ao mesmo tempo eu queria viver outras tantas tardes sob aquela árvore só para tê-la em meus braços, sentir o seu cheiro embebido em seu perfume... Eu queria viver para você, todos os dias que me restassem. E ao mesmo tempo em que eu apenas pensava em um futuro repleto da sua presença, eu lamentava pela minha ausência de passado, por não ter nada a lhe contar, por não ter experiências, por ser ninguém. Eu não tenho muito a lhe oferecer... Porém, se ficar comigo o que eu tenho, lhe darei. E por hoje não posso oferecer nada além do calor que ainda resta em meu corpo para aquecê-la e um lugar em meu leito para o teu sono. Se você for permitindo eu lhe darei a minha vida, um dia de cada vez, posto que eu não a tinha antes de tê-la comigo. E eu... eu morreria se..."
Começou aos sussurros e ainda debruçado na cama, mas na segunda ou terceira frase levantou a cabeça e olhou-a nos olhos, apenas durante a ultima frase foi que ele deixou seus olhos escorrerem pelas paredes do quarto, como se procurassem algo para onde olhar, fracassou. A moça deslizou sua mão ao redor do rosto do rapaz e o fez olhar para ela novamente, graciosamente curvou-se e tocou os lábios do rapaz com os seus. E sussurrou.
"A morte não o tomará de mim, não se esqueça disso..."
E o beijou novamente, e ele pela primeira vez esboçou um sorriso desajeitado.
"Eu tenho frio!"



