domingo, 21 de dezembro de 2008

Conto I - Parte 6



O homem conduziu os tecidos encharcados e o corpo frio da mocinha para dentro de seu quarto, trazia-a em seus braços nus enquanto o vestido vermelho molhava a sua roupa. Deixou a garota próxima da cama - foi soltando, soltando, como se lhe doesse ter de solta-la por um instante que fosse - e voltou para fechar a porta. Apenas enquanto ele voltava para perto da garota foi que ele notou que sua camisa de tão molhada grudava-lhe no corpo. A mocinha também percebeu isto, e logo tentou se desculpar, mas apenas tentou, pois mal pronunciara a primeira silaba e dois dedos pousaram-lhe por sobre os lábios, selando-os - então se calou.

Seus corpos estavam muito próximos, a respiração de um confundia-se com a do outro, seus olhares se cruzavam, se perdiam e se encontravam. Ela, que ainda sentia frio dentro de seu vestido, sentiu as mãos do homem deslizarem em sua cintura abraçando-a uma outra vez e trazendo-na para junto de seu corpo. Ele colocou seu rosto junto ao da garota, ela fechou os olhos e entregou-se ao encontro sublime de seus lábios em um beijo - que pareceu-lhe ultrapassar as barreiras do tempo marcado nos ponteiros de um relógio de bolso - foi um beijo quente, terno, nobre. Abraçavam-se com carinho - a garota descansava umas de suas mãos num dos braços do rapaz enquanto a outra afagava-lhe os cabelos; e o rapaz, com uma de suas mãos a segurava firme pela cintura enquanto a outra fazia alguns passeios tímidos pelas suas costas.

Ele parou de beija-la e a abraçou, levando suas duas mãos até o alto de suas costas e abrindo, inexperientemente, o fecho do vestido vermelho. Assim que o vestido caiu todo aos pés da moça, o homem, com sua expressão imutável e quase majestosa, segurou num ato cavalheiro uma das mãos dela, a fim de ajudá-la a sair do meio dos tecidos. E ela o fez, deixando ali mesmo os sapatos.

Ainda chovia lá fora e a lua ainda tentava se livrar das nuvens que cobriam-lhe o fulgor de seu semblante, de modo que no quarto, além da escuridão, havia apenas uma tímida luz cinérea.

Ele soltou delicadamente a mão da mocinha e pegou em sua cama um lençol, e com ele envolveu o lindo e alvo corpo nu de sua garota - na verdade, ela trajava apenas uma peça de roupa que cobria-lhe a virilha, apenas isto, e mais nada. O homem segurou-a pelos ombros e deu-lhe mais um beijo, e depois conduziu-a até a cama e ela sentou-se com os pés descalços sobre o colchão ainda coberta pelo lençol. Ela sentiu os lábios do homem beijar-lhe a testa, e depois o viu afastar-se até um canto escuro do quarto, onde não conseguia o ver muito bem. Mas o viu voltar, sem camisa, com uma calça seca e os pés descalços, ele se aproximou e ajoelhou-se ao lado dela na cama, olhou-a nos olhos e depois debruçou-se na beira do colchão escondendo o rosto. Ela, com certo receio, descansou sua mão nos cabelos do rapaz - eram tão macios.

"Por muito tempo eu fiquei só, e me esqueci de como era ter alguém ao meu lado. Eu não tenho passado, e nunca esperei nada do futuro, apenas vivia o presente enquanto ele se permitia durar. Não lembro-me de como ou quando fiquei sozinho, não sei nem mesmo o meu nome; nunca me perguntaram, nunca me chamaram... Ele foi ficando e ficando para trás, como todas as outras coisas que se dizem ao meu respeito, até que tudo se perdeu na minha memória. Eu não sei lidar com sentimentos, e para ser sincero eu havia até me esquecido que eles existiam, ou pelo menos o que cada um deles quer dizer. Eu não sou muito bom nisso, e não sei se já fui alguma vez... Mas, quando você caiu em meus braços hoje eu me senti estranho, pela primeira vez eu tinha alguém ali, preenchendo um vazio que eu nem sabia que existia, e de repente eu vi como todos os dias que eu venho vivendo têm sido vagos desde eu não sei quando. Você trouxe em seu perfume um sentimento que eu não sei explicar, é como todas as coisas juntas, eu não sei... Eu queria morrer ali mesmo, pois as coisas que falou para mim naquela tarde me valeram a vida, e eu sentia como se eu tivesse chego ao cume de onde se deve chegar, ao ápice. E ao mesmo tempo eu queria viver outras tantas tardes sob aquela árvore só para tê-la em meus braços, sentir o seu cheiro embebido em seu perfume... Eu queria viver para você, todos os dias que me restassem. E ao mesmo tempo em que eu apenas pensava em um futuro repleto da sua presença, eu lamentava pela minha ausência de passado, por não ter nada a lhe contar, por não ter experiências, por ser ninguém. Eu não tenho muito a lhe oferecer... Porém, se ficar comigo o que eu tenho, lhe darei. E por hoje não posso oferecer nada além do calor que ainda resta em meu corpo para aquecê-la e um lugar em meu leito para o teu sono. Se você for permitindo eu lhe darei a minha vida, um dia de cada vez, posto que eu não a tinha antes de tê-la comigo. E eu... eu morreria se..."

Começou aos sussurros e ainda debruçado na cama, mas na segunda ou terceira frase levantou a cabeça e olhou-a nos olhos, apenas durante a ultima frase foi que ele deixou seus olhos escorrerem pelas paredes do quarto, como se procurassem algo para onde olhar, fracassou. A moça deslizou sua mão ao redor do rosto do rapaz e o fez olhar para ela novamente, graciosamente curvou-se e tocou os lábios do rapaz com os seus. E sussurrou.

"A morte não o tomará de mim, não se esqueça disso..."

E o beijou novamente, e ele pela primeira vez esboçou um sorriso desajeitado.

"Eu tenho frio!"








quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Conto I - Parte 5


Sua cama parecia ser tão vazia que por mais que ele quisesse se levantar e andar de um lado para o outro naquele quarto escuro, não conseguiria, a cama o puxava para si. Porém, ele não era capaz de fechar os olhos e dormir - ele ainda pensava na garota - e ele só permanecia de olhos fechados por um motivo: Ele a via claramente no lado de dentro de suas pálpebras, ela estava lá, e não ia embora. O Sono o desprezou naquela noite, e ele apenas se concentrava nas lembranças da garota; em seu vestido vermelho; em seus olhos verdes; em sua pele macia; em seus lábios... Sândalo!

Foi quando ele deu um pulo da cama, tão rápido e com tanta determinação que esta não teve tempo de fazê-lo mudar de ideia. Ele estava de pé ao lado cama ainda com os olhos fechados, aspirou o ar que o rodeava e então abriu os olhos de frente para a janela. A noite estava fria, úmida, escura... Vazia. As finas gotículas de chuva batiam contra o vidro da janela fazendo um barulho bom, as folhas se debatiam com o vento e uma lua prateada tentava sair de trás de uma nuvem. Ele fechou os olhos outra vez e aspirou mais uma vez o ar, virando-se para trás... era Sândalo. A porta o chamou com duas batidas delicadas e firmes. Ele foi até aporta, um passo por vez, mais duas batidas e... ele girou a maçaneta. Entrou por entre uma primeira pequena fresta da porta um ventinho gélido e perfumado, mais um pouco e, com a porta toda aberta, ele viu um vestido vermelho, olhos verdes e um perfume de Sândalo.

A mocinha tinha os cabelos e roupas molhados, ela tinha frio. Seus dois olhos verdes eram duas suplicas incansáveis de afeto, ela precisava estar ali mais do que precisava que o seu coraçãozinho continuasse batendo. A graça de seu rosto iluminou-se ao ver novamente o "ninguém", e no outro instante sua graça esmaeceu-se cabisbaixa e com uma voz de chuva murmurou.

"Eu não pude dormir. Não poderia sem o senhor, meu caro. Desde o momento em que eu me encontrei entre os teus braços eu soube que não conseguiria viver fora deles. Eu menti, pois uma vez te segui, por isto sei onde te recolhe o sono. No dia não estava escuro, nem chovendo. Eu demorei um pouco para me encontrar, mas eu me encontrei, e encontrei também ao senhor. E..."

O homem continuava mudo olhando para a mocinha, sem mover um músculo sequer, continuava em pé segurando a porta e fitando-a sem cessar. A mocinha virou seu rosto para a esquerda, como quando alguém percebe que teve uma má ideia e se lamente por ela em silêncio.

"Oh, céus! Como pude?", e suspirou profundamente, levantou as duas mãos e gesticulou um pouco enquanto gaguejava algumas silabas, até que finalmente conseguiu formar um frase - ou quase isso. "Eu não deveria ter..."

Ela teria dito "Eu não deveria ter vindo incomodar ao senhor, vou-me embora e juro-te que não serei impertinente uma outra vez", ou algo do gênero, mas a verdade é que ela sentiu que deveria parar a frase exatamente ali pois algo aconteceria. E a real verdade era que aquele homem não estava apenas parado em pé segurando a porta e fitando a mocinha, não! Uns diriam talvez que ele estivesse tomando coragem, porém, ele estava mesmo tentando se lembrar como se fazia. O olhar da garota perdeu-se nos olhos daquele homem enquanto falava com dificuldade as palavras que anunciariam a sua partida, porém ao perder-se, ela viu. E viu antes que acontecesse, pois ele sentiu antes que ela pudesse sentir. E como o romper de uma barreira, como uma invasão, como um assalto ou um sequestro, como uma bala perdida, como uma espada precisa, como um encontro casual, como um corpo em uns braços, como dois olhares que se cruzam infinitamente, como a vida e a morte... o não-ser daquele homem envolveu em seus braços os tecidos vermelhos e os cachos acastanhados da mocinha.

A mocinha esboçou um sorriso desajeitado, enquanto o homem com o corpo junto ao dela continuava sem muita facilidade em obter expressões precisas, ele apenas fechou os olhos enquanto sentia a mocinha nele e seu cheiro inconfundível... era Sândalo.



quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Conto I - Parte 4




A mocinha com os olhos estalados e os lábios entreabertos, cerrou ambos os pulsos sob o queixo, como se quisesse se proteger da pergunta - que tanto temia responder. Ela deslizou seus olhos por sobre o não-ser do individuo à sua frente - cabelos castanhos jogados e um já um pouco desarrumados com o vento, rosto robusto, a barba por fazer, olhos escuros e profundos, desses que penetram a alma, trajava um terno preto muito bem alinhado, sapatos pretos brilhantes, um homem elegante, fino e sem expressão. Ela arrastou seu vestido para junto do homem, e pôs-se a olha-lo nos olhos por longos e longos segundos.

"O que espera que eu lhe diga: o que você parece ser ou quem eu gostaria que fosse?"

"E há diferença?"

"Sim, há."

O homem se sentou em um banco próximo a ele para ouvi-la, sem desgrudar o olhar da imensidão verde nos olhos da garota.

"Não sei nada sobre o senhor, nem mesmo o teu nome. Não sei se és daqui, ou se estás apenas de passagem, se vais, se vens, se queres ir ou queres voltar. Não conheço o caminho que o senhor segues, nem as calçadas por onde andas, não sei onde moras ou onde apenas descansas teu corpo. Levando em conta o meu não-saber, é o senhor para mim Ninguém... Ou apenas um rosto sem nome..."

O "ninguém" levou uma de suas mãos até um de seus bolsos, o mesmo a que recorrera a fim de apanhar um lenço para a mocinha, e também com a mesma finalidade: o lenço. Levou o pedaço de tecido branco até seus olhos que estavam quase transbordando algo que já nem sabia mais o nome, e notou que o seu lenço tinha um quê a mais: era sândalo! Uma lágrima escapou de seus olhos, e logo foi apanhada pelo lenço. A moça, com uma majestade indubitável, sentou-se ao lado do rapaz e afagou os seus cabelos enquanto ele ainda se concentrava em seu lenço.

"O senhor, meu caro, era um vulto negro, quase um fantasma... que talvez a ninguém tenha assombrado. Era um homem como tantos outros, e uma pessoa como todas aquelas que cruzam nosso caminho de volta para a casa. Umas dessas pessoas que passam por nós, e nunca reparamos. Porém, meu caro... entre ir para a casa e cruzar o teu caminho, eu optei pelo segundo. Eu poderia ter apenas passado pelo senhor, mas eu escolhi ver-te em meio ao deserto de pessoas que nos rondava. E assim foi, não por hoje, mas por dias! E o único dia em que eu optei por desviar o meu olhar de um encontro impossível, eu ironicamente caí em teus braços. Teu nome para mim é um mistério, bem como o meu para o senhor. E creio que sabe tanto de mim quanto eu sei sobre tua pessoa - e imagino que isso seja nada diante à nossa vida. Da mesma forma que és ninguém para mim, sou ninguém para o senhor. Mas há uma controvérsia aqui, ao menos para mim: como pode um alguém sentir por "ninguém" o que eu sinto quando te vejo - e hoje ainda mais por estar ao teu lado? E como eu posso temer um sentimento desconhecido que eu sinto por "ninguém"? Creio que não sejas fruto de minha imaginação imatura!"

Sem reação, o homem não teve tempo de pensar no que dizer e se tivesse pensado, não tinha tido tempo de organizar as palavras de maneira racional, antes que ele pudesse dobrar o lenço e devolvê-lo ao seu bolso, a moça e seu vestido vermelho estavam postados à sua frente, e os lábios quentes da moça estavam grudados em sua testa. Ele não conseguia abrir os olhos, ele apenas sentia algo se esparramando em seu corpo, de dentro para fora, e jurou ter sentido uma lâmina afiada sair-lhe do peito, tão afiada que doía ao mesmo tempo que fazia cócegas. Sândalo! Os lábios da moça afastaram-se da testa do homem, e foram ter com um de seus ouvidos aos sussuros.

"Eu preciso ir agora, perdoe-me pelo tempo que tomei do senhor."

Ele sentiu uma das mãos da mocinha deslizar-lhe sobre o rosto, e abriu os olhos a tempo de vê-la se afastando ao longo do parque.

Depois de perdê-la de vista, guardou seu lenço umido e levantou-se - levou três segundos e - voltou a andar rumo à sua casa, ou apenas o leito onde descansava o seu corpo, já não importava e nunca havia importado.

Naquela noite, o homem sem-expressão apresentou um semblante amuado e triste, quase melancólico e repeso, quando deitou sua cabeça sobre o travesseiro. E não por ter entendido a palavra "súbito" em seu mais sublime e intimo significado; não por sentar-se em um banco do parque e ouvir aquela doce e delicada voz embebida de sândalo; não por não tê-la impedido de ir; não por não ter tido coragem para dizer que ele gostaria que ela ficasse; não por estas coisas. Ele se entristecia apenas em não saber se a veria novamente algum dia.