sábado, 1 de agosto de 2009

Voluptia (Conto II - Parte VI)

Suas pálpebras ainda estavam demasiado pesadas, e sua cabeça girava entorno de seu corpo jazido na cama. Sua consciência foi voltando; o cheiro forte de perfume, a musica alta e os risos do outro lado da porta, um gosto de tristeza na boca, e o papel de parede e as cortinas carmim. Quando a lembrança caiu sobre teu peito, súbito, sentou-se na cama, como se fugisse da cama que o agarrava e o puxava para o sono eterno. Deslizou uma das mãos sobre a face, fechando os olhos e suspirando, deixou a mão cobrir-lhe a boca e assim ficou, olhou em volta ainda perplexo. Demorou dois segundos para que ele visse o corpo nu da linda cortesã abandonado no carpete de cor clara. A taça ainda estava enroscada em seus dedos mortos, na mão deitada angelicalmente ao lado do ombro.
Diferente do que muitos fariam, ele sentou-se na beira da cama e limitou-se a observá-la, descansando o queixo sobre os punhos cerrados, com os cotovelos apoiados nas pernas. Ele apenas ficou ali, desenhando-a com os olhos, seus cabelos anelados, suas curvas ainda tão atraentes, seus seios delicados, firmes, suculentos. Tão bela, tão linda... e morta.
Alguns bons minutos depois ele se levantou, ajoelhou-se ao lado dela, tentando resistir à louca tentação de tocá-la e suplicar por sua vida. Segurou entre os dedos uma das mechas se seus cabelos, entreabriu os lábios ensaiando palavras, mas logo percebeu que seria besteira pronunciar qualquer coisa. Levantou-se aflito, deu alguns passos nervosos e sem pensar, olhando para as paredes e para lugar nenhum, nem mesmo os quadros das paredes o trazia à realidade. Sem qualquer motivo, ele olhou para a cama que velou seu sono e enfim percebeu um envelope entre as cobertas e almofadas.
Sem pensar muito, ele se dirigiu até a cama e apanhou o envelope. Uma onde de perfume chegou às suas narinas, embora todo aquele ambiente estivesse perfumado, aquele perfume fez abafar todos os outros odores. Ele abriu o envelope e retirou algumas folhas dobradas. Uma caligrafia fina e delicada, as linhas bem espaçadas, e as palavras escritas como sobre uma linha reta. Os olhos do rapaz se fixaram na primeira linha, ele a leu diversas vezes sem entender o que estava escrito, pois, quando a terminava não se lembrava do que havia lido. ele respirou fundo, olhou para o corpo jazido no meio do quarto, sentou-se na cama, e leu novamente:

"Meu doce Amado que jaz em meus lençóis,..."

Assim como ele temia, a carta era para ele.


7 comentários:

meus instantes e momentos disse...

foi bom ver voce por lá. tenha uma ótima noite.
Gosto daqui.
Maurizio

Arthur Soares disse...

Não somente agradeço seu comentário, mas também devo elogiar seu blog. Vejo que ambos os blogs, o meu e o seu, nossa estimada solidão vem sendo nossa companhia...

Ricardo Winchester disse...

Mtu bom o conto!!! Lendo consegue se chegar a exata imagem do que tu descreves.
Percebi que seus textos tem muito de Clarice Lispector com um toque sombrio de Edgar Allan Poe, não sei já leu algum de seus livros, mas se não, leia-os. Acho que vai lhe dar novos horizontes.

Brazz
e boa semana pra nós!

PQNA disse...

Vc faz seus leitores querem mais...
amei seu conto... rico de detalhes que traz sentimentos, principalmente a mim, e sensaçoes fascinantes....

parabens

Juliana Rodrigues disse...

Parabeeens mesmo pelo conto. =]
Isso me deixa anciosa para terminar de lê-lo.
Escreves muito bem ;*

Feänor disse...

Que felicidade ver tua inspiração retornar! Sabia que teu bloqueio não duraria...

Mas agora, preciso reler teu conto por inteiro - já faz tempo demais que li os outros, e minha memória não é das melhores... Te direi o que acho da obra completa quando terminar.

Feänor disse...

Vou escrever o que acho após a releitura na íntegra do teu conto, pontuando em cada parte o que pensei durante a leitura - quem sabe assim, você possa ter um feedback mais adequado:

Poder. É a primeira palavra que me veio à cabeça após a leitura da primeira parte. A história de uma pessoa poderosa, controlando aqueles à sua volta com a melhor arma que toda mulher possui: a sensualidade.

Foi interessante acompanhar a transição do plano exterior para o interior na segunda parte, que revelou a fragilidade da altiva manipuladora: ela ansiava, assim como a maioria, por mais do que o mero contato superficial - ou ao menos foi o que pensei. Mas esta é a sina dos titereiros, não criam qualquer vínculo profundo com seus marionetes.

A críptica revelação dos motivos para seu comportamento veio depois, na terceira parte: vingança, suicídio, solidão... Isso me fez pensar que ela não fazia aquilo por desejo próprio, mas por uma quase compulsão, uma espécie de dever auto-imposto, mas sob o qual ela não teve opção real senão aceitar. Talvez seja real o que diz a religião Asatru, um culto aos antigos deuses nórdicos, sobre o destino: "não podemos escolher as alegrias ou terrores que enfrentaremos, mas podemos escolher enfrentá-los calmamente. Esta é a nossa liberdade".

Com suas declarações de mulher dominadora na parte IV, confirmei minha suspeita - ela busca, em seu ofício, aquilo que não consegue fora dele: enganar a si própria com a aparência de que ela está no controle, controle este que inexiste em sua própria vida, cujo rumo desejado lhe escapou por entre seus dedos como areia.

A parte IV é o cume do processo erosivo que sofrea redoma de cristal da dama: por mais forte que sejam as pessoas, não é possível ignorar para sempre nossas maiores angústias. Um dia, é preciso olhar para o abismo, e frequentemente somos empurrados até sua borda por terceiros sem esta intenção. Gostei em particular de sua habilidade descritiva nesta parte - há uma dinâmica em tuas palavras que realmente dá vida à cena.

Me surpreendeu com a parte V, não esperava a morte prematura da jovem. Lembrei um pouco do Lobo da Estepe, de Hesse, aqui, mas, digamos, invertido. Algumas pessoas se acostumam tanto com a infelicidade, que acabam por rejeitar a mera hipótese de ser feliz. Seria esse o caso? Foi isso que me perguntei ao terminar de ler... Traria o desfecho de teu conto uma espécie de atualização do drama de Romeu e Julieta?

...e finalmente, o último conto disponível. Nada tenho a dizer, fora o fato de que conseguiu encerrá-lo da maneira ideal para atiçar nossa curiosidade. Aguardo ansiosamente para ler o conteúdo desta carta.

De qualquer forma, dá para perceber o amadurecimento da tua escrita neste conto. Espero que a inspiração nunca lhe falte, sei que dará uma bela escritora no futuro. Seria uma agradável surpresa poder incluir um livro teu em minha estante - e se por um lado eu disse surpresa, por outro, eu não duvido nada que isso aconteça.