terça-feira, 15 de setembro de 2009

Voluptia (Conto II - Parte VII)


A carta bailava entre seus dedos trêmulos, a respiração pesada - ele já não sabia se realmente queria prosseguir. Apertou os olhos, esperou a visão voltar, respirou fundo e leu novamente, mas desta vez, continuou.

"Meu doce amado que jaz em meus lençóis,

Sinto muito por causar-lhe tamanho desconforto, e também por trazer-lhe confusão. Receio ser tarde demais para uma autobiografia, e minha vida já não é mais importante, posto que ela será apenas uma leve brisa passageira quando seus olhos estiverem deslizando por sobre esta minha caligrafia suicida. E talvez eu lhe deva desculpas por não ter cumprido com o meu dever, e agora a palavra "dever" me soa tão desproporcional em relação ao meu oficio.
Eu esperei tanto tempo por este dia, mas também desejava que ele nunca batesse à minha porta. Eu o ansiava ao mesmo tempo em que o repudiava. E ele chegou hoje, da única maneira que eu não havia imaginado ser: eu me apaixonei."

Faltou-lhe o ar por alguns instantes, ele olhou para a dama deitada sobre o carpete e ela parecia uma deusa em seu sono mais tranquilo e encantador. Sentiu uma dor no peito, tomou para si algum fôlego e voltou a ler.

"Não lhe cabe saber ao meu respeito, prefiro ser para sua pessoa apenas mais uma cortesã, todavia para mim não fora apenas mais um homem. Mas eu não faço o tipo dramática, embora tenha chorado em seus braços. Eu não vou me lamuriar justo na primeira e também ultima carta que escrevo. Deve estar agora se perguntando então o porque desta carta, já que cartas são linhas que traçam vidas, ou deságuam em lamentos.

Fuja!"

Um arrepio lhe subiu a espinha.

"Não há como explicar o cadáver da melhor cortesã de um prostíbulo jazido no chão. E quem acreditaria em um desconhecido? Por isso, fuja! Lá fora estão todos embriagados, não notam as pessoas que vem tão pouco as que vão. Aqui as pessoas só se importam consigo mesmas e com a diversão infinda até o amanhecer. Este é pois o meu ultimo pedido: Vá e não olhe para trás!
Eu lhe agradeço pelo que fez por mim - já não me lembrava da ultima vez que chorei, e menos ainda da ultima vez que alguém me viu chorar, e ainda menos da ultima vez em que consolaram o meu pranto com o silêncio, sem investigar o motivo.
Eu sinto muito, mas não há tempo para mais explicações ou devaneios. A morte está próxima, eu posso senti-la. E ela tem um doce perfume de solidão e paz."

O vento da noite batia contra a janela, e penetrava por suas frestas. As cortinas dançavam suspensas, brincando com as sombras na parede enquanto a luz fraca do abajur travava guerra contra a escuridão do cômodo, e a luz da Lua entrava tímida através dos vidros. E o perfume ainda inebriava o quarto, como neblina em noites frias.

"Estou prestes a entregar meu corpo de bom grado à Morte, e não sei o porque de minha vida. Mas lhe dou o direito de saber um dos porquês de minha morte..."

Seu coração quase parou, engasgou e engoliu a seco, perdeu o ar e estremeceu. Respirou fundo e voltou.

"Não seria justo fazê-lo mais um, posto que foi o único."

E continuou.

"Não seria justo ser igual, quando foi diferente."

E com a carta vacilando entre o dedos ele leu as ultimas linhas.

"Não há um nome que deva saber, e não há uma data que deva ser marcada.
O que há agora, meu doce amado, é o Adeus!"

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