Ele não chorou, não sorriu, nada. Ele apenas ficou ali, segurando as folhas de papel que agora se encontravam um pouco amassadas e, talvez, até um pouco umedecidas pelo suor de suas mãos. Aos seus pés, o imutável corpo resplandecente do que um dia fora tido como uma deusa, jazido no carpete macio de um ambiente fragrante. Não soube, depois, definir por quanto tempo ele ficou ali, inerte - pareceu-lhe toda a eternidade, embora tenha se esforçado o máximo que pode em se apressar. Seus olhos deslizavam indecifráveis pelo ambiente, enquanto metia-se em devaneios e lembranças.
Quando conseguiu resgatar sua consciência, levantou-se da cama e apanhou sua camisa de um branco impecável, vestiu-a, e inevitavelmente levou os olhos ao belo cadáver no chão, enquanto a abotoava, automaticamente. Terminou de se vestir, tentando manter os olhos em algum ponto fixo do quarto. Tentou olhar os sutis desenhos floridos do papel de parede, tentou alguma das poucas arandelas e também um pequeno porta-retrato sobre uma mesinha de canto - detalhe que ninguém teria percebido se não estivesse desesperadamente fugindo o olhar daquele corpo doce e morto no meio ao lado da cama. Era sim um pequeno e imperceptível porta-retrato, que estava evidentemente fora do lugar, ele era como um ponto de desequilíbrio na decoração do ambiente.
Ele teria o deixado de lado, mas foi a unica coisa até então que pareceu chamar-lhe atenção, desde que vira a moça. Não resistiu e tomou-lhe para si, e sob a meia-luz, tentou vê-lo melhor. Era de um metal velho, ele arriscou dizer a si mesmo, já que estava sozinho, que era prata envelhecida. Tinha um formato elíptico e abria como um livro, e era adornado com pequenos rubis e desenhos que lembravam ramos, folhas e flores. Em seu interior a prata parecia ser mais clara, mais vivaz, como se aquele pequeno porta-retrato ficasse mais fechado que aberto. Lembrava um medalhão, mas era grande demais para ser um e proporcionalmente pesado, mas era com certeza pequeno para um porta-retrato. Ele portava duas fotos, ambas em preto e branco:
A primeira, a da esquerda, era uma foto da mesma moça jazida no carpete, ela trajava um vestido claro e volumoso, com pequenos laços mais escuros e babados delicados dando ao vestido um caimento angelical. Os cabelos estavam presos em um coque muito bem feito, que deixava cair ao lado daquele belo rosto alguns pequenos e tímidos cachos. Seu pescoço exibia um belo colar com pedras bem lapidadas, que ele imaginou ser feito com agua-marinhas e prata, ou talvez ouro branco. A moça descançava sua mão sobre o colo como em um ato solene e majestoso;
A segunda, a da direita, era também a mesma moça, ainda com os mesmos belos vestido e colar, e só agora ele reparou que haviam também brincos que formavam um gracioso conjunto com colar. Esta foto, diferente da outra, centralizava seu rosto e acabava em seu busto e então ele quase teve certeza de que eram agua-marinhas, mas ainda se tratava de uma foto em preto e branca. Notou seus olhos brilhantes e altivos, sob a sobrancelha fina e bem desenhada. Seus lábios delicados, os imaginou rubro, que desafiavam um quase sorriso. Segurava entre os dedos finos sob uma luva de cetim que só poderia ser branca, uma exuberante rosa branca que descansava entre os seus seios. Percebeu agora um anel, com uma grande gema de uma pedra que ele não se decidiu se era agua-marinha ou se era na verdade topázio. Ele não entendia muito sobre pedras preciosas, ele apenas ousou deduzi-las, somente por um impulso que nem mesmo ele entendia.
Eram duas fotos muito bonitas, e que de repente o fez notar que não sabia dizer há quanto tempo aquelas fotos haviam sido tiradas - ela parecia tão bela e nova minutos antes de sua morte quanto as fotos a mostrava. Ele diria terem sido tiradas e reveladas pela manhã, se isso não lhe tivesse caido como loucura, pois, ele de repente, notou que ainda estava no quarto se fazendo perguntas tolas a respeito das fotos de um morto.
Apressou-se de repente, dobrou a carta e colocou-a devolta no envelope e o guardou no bolso interno de seu paletó. Ajoelhou-se ao lado de sua cortesã, deslizou a ponta de seus dedos desde o seu pescoço até o busto - sua mão paralisou-se bem ao meio de seus seios, tão firme e belos quanto de uma virgem de pedra, deslocada para o lado esquerdo, onde deveria haver um órgão pulsante. Incrédulo, ele levou seus lábios até os ouvidos dela e sussurrou.
"Boa noite! Durma em paz!"
E beijou-lhe a face gélida, e como se fosse de gelo, pareceu ter dificuldade em desgrudar seus lábios da maçã de seu rosto. Levantou-se sem tirar os olhos dela, e quando o fez, notou o par de luvas de cetim pretas caídas no chão. Quando se deu conta, ele as segurava com força contra o rosto deleitando-se naquele perfume único e agora extinto para sempre. Colocou-as sobre a cômoda, e pegou, automaticamente, o envelope com o seu cheque mas, antes de guardá-lo e colocar a mão na maçaneta, ele olhou mais uma vez para o par de luvas e o porta-retrato. Sem pensar muito ele devolveu o seu envelope à cômoda, apanhando o par de luvas e em seguida o porta-retratos sobre a mesinha de canto. O envolveu com as luvas e os guardou junto à carta. Voltou para a porta, girou a maçaneta, e saiu.
Em seu trajeto entre a porta do fim do corredor até as ruas escuras da madrugada não aconteceu nada de especial, na verdade, foi bem como a cortesã disse que seria - "Lá fora estão todos embriagados, não notam as pessoas que vem tão pouco as que vão. (...)Vá e não olhe para trás!". Foi o que ele fez, foi sem hesitar, e por momento algum ousou sequer pensar em olhar para trás. Ele seguiu, até mesmo depois quando já respirava o ar frio da noite, um passo logo após o outro, como se realmente soubesse para onde ir.
Andou algumas quadras, virou algumas esquinas, apenas foi.
E ele sabia que depois daquela noite, sua vida não seria a mesma, ou pelo menos ele achava isso. E a verdade é que realmente não seria. Acontece que, talvez (ninguém sabe dizer realmente ao certo) aquela não fosse apenas uma cortesã, talvez ela fosse mesmo uma deusa. Pode parecer-lhes loucura, mas não o achariam se soubessem.
O fato é que, talvez ela fosse mesmo uma deusa, e esse rapaz provou não apenas de seus beijos, mas de suas lágrimas. Sentiu não apenas a textura macia e suave de sua pele, com uma de suas mãos ele interceptou uma de suas lágrimas. E mais que tudo, ele sentiu cada uma daquelas lágrimas arderem em seu peito. Pode parecer-lhes loucura sim, mas não achariam isto se o soubessem bem.
Mas esta é a história de uma cortesã; de uma mulher que todos haviam desejado; sobre aquela que alguns diziam ser a Luxúria em forma humana; e sobre aquela que alguns não diziam humana - a chamavam quase em segredo de deusa da Volupia. É a história sobre uma cortesã que conheceu o amor, e que escolheu a Morte por motivos que talvez ninguém entenda.
Não, esta definitivamente não é a história sobre um rapaz dotado de um dom magnifico para o amor. Pois essa, já é uma outra história.



1 comentários:
gente...
Minha imaginação deu voltas
(arrepiei)
AAAAAA
Escreves perfeitamente bem..
E de onde vem taaanta inspiração flor?
:**
Lindo tocante(inspirador)
como sempre♥
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