terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sobretudo, o Vazio.

Era noite e fazia frio. O céu era de um papel camurça azul muito escuro com pequenas lantejoulas brilhantes salpicando a escuridão amena enquanto algumas nuvens de um fino e leve algodão acinzentado ofuscavam a luz cinérea da circunferência prateada que, carinhosamente, chamam de Lua. Uma brisa soprava leve em direção alguma, levando de bom grado o delicado aroma das damas da noite em seus braços.

E na penumbra, eu me recostava na cabeceira da cama com as mãos descansadas no colo, observando o silêncio pairar na atmosfera do cômodo escuro enquanto sentia o vazio escorrer das paredes. Outra vez o Vazio dava as caras por ali, era sempre a mesma história e sempre acontecia como se fosse apenas a primeira vez.

O Silêncio dançava angelicalmente sob a penumbra, e trazia consigo um olhar tão doce. De súbito, uma brisa gélida e perfumada entrava pelas frestas da janela fazendo o Silêncio esmaecer-se, e a Escuridão estremecer. O Silêncio com os olhos aturdidos procurava abrigo, a Escuridão tomava o Silêncio em seus braços e olhava nobremente dentro de seus olhos - um olhar que é capaz de desvendar a alma. Ainda rodeados pela brisa, a Escuridão aproximava seus lábios dos do Silêncio, que os entreabria enquanto fechava os olhos e se entregava de bom grado. Assim, a Escuridão dava um beijo nos lábios gélidos do Silêncio, e se tornavam um só – E já não havia diferença alguma entre a escuridão e o silêncio.

E então vinha o Vazio, tomando conta do quarto com uma imponência sutil e robusta.

Jamais sei o momento exato em que ele entra no quarto, nem quanto tempo levo para notar sua presença. Quando dou por mim o Vazio já está lá; perto o bastante para que eu sinta sua respiração em meu pescoço e longe o suficiente para que eu não ouse tocá-lo. E está ali sempre há tanto tempo que eu nunca tenho oportunidade de me assustar.

Aproximava-se com tenuidade, mal podia ouvir os seus passos, e tocava o meu rosto com as pontas de seus dedos geladas - eu me limitava apenas a sentir o frio subindo a minha espinha e minhas forças esvaindo-se aos poucos. E me beijava de tal modo que me fazia crer que era parte de mim.

Pode parecer loucura, mas eu nunca resisto aos seus encantos, seus toques, seus carinhos frios e solitários. Eu me rendo aos seus murmúrios aos pés do meu ouvido, e então, sucumbido aos devaneios sublimes da escuridão, eu lhe entrego meu corpo e minha alma que, jazidos sobre a cama, clamam secretamente pela Plenitude.

Ah, o Vazio! Se soubessem como eu amo a sua pele macia, seus cabelos perfumados, seus lábios e seus carinhos.

Não o vejo chegar, não o vejo partir.

Quando vejo, já se foi. E da mesma forma como veio, parece que já tinha ido há tanto tempo, embora eu ainda pudesse sentir seus lábios colados nos meus e suas mãos macias e frias sobre o meu corpo.

O Escuro ainda tinha o Silêncio em seus braços, e ainda roubava seu fôlego com um beijo enquanto dançavam nobremente sob a penumbra. E eu continuava tão inerte quanto antes, recostado na cabeceira da cama, com as mãos descansadas no colo, agora, inebriado pelo silêncio que era também a escuridão.

As noites são sempre as mesmas - sempre as mesmas.



4 comentários:

Lauuuu* disse...

Total dominio das palavras e elegancia ao escrever.

Adorei o texto !
beijo

http://laudiceiasantana.blogspot.com/

Felicidade Clandestina. disse...

perfeito eu diria,

gostei das tuas palavras.

usa-as muito bem por sinal.

Branca disse...

Vc tah de parabens menina!! Deonde vem tanto talento assim?


bjooos

Insensatez disse...

Eu ADOREI isso aqui...
Pq "isso" é mais q um texto, é tão detalhado e emocionante, que é como se você estivesse vivendo a experiencia!
Paulo Coelho?? Hum... que nada!
O Futuro tá aqui!