quinta-feira, 10 de março de 2011

Narcisos

Entreabriu os olhos, fraco demais para perceber onde exatamente jazia o seu corpo. A vista ainda embaçada e confusa ia desenhando o ambiente esfumaçado com cores mortas, uma parede com a pintura gasta e encardida, uma porta velha de madeira que havia sido pintada com um verde escolhido com muito mau gosto, uma lâmpada com a luz fraca no meio do cômodo suspensa por um fio elétrico, o ambiente cheirava a mofo, bolor, ácaro, jornal molhado, madeira podre e narcisos amarelos... frescos.

A única janela que se dispunha no ambiente estava coberta com tabuas mal pregadas e corroídas por cupins, uma delas dependia sobre as outras a ponto de cair, os vidros estavam quebrados ou então nem existiam mais, talvez apenas uns resquícios de sua existência num passado aparentemente distante. O vento uivava entre as frestas das madeiras, manso, frio e solene.

Por fim, avistou ao seu lado uma moça, que deveria ter notado há tempos. Ela estava de joelhos sobre o assoalho de madeira úmida e podre, descansava as mãos sobre o peito segurando um punhal prateado, cabisbaixa com os cabelos lisos dançando ao embalo do vento que de quando em quando vinha meter-se em suas madeixas negras. Olhos fechados, pele pálida, boca enrubescida.

A moça levantou-se, desabotoou a sobreveste deixando-a deslizar sobre o seu corpo até cair aos seus pés. Os cabelos caiam sobre os ombros nus, o torso cingido por um espartilho negro, a virilha ornada por um delicado lingerie de renda, nas mãos... o punhal. Aproximou-se com astúcia, sentando-se sobre as coxas do rapaz, que por sua vez estremeceu. Com auxilio do punhal, a moça foi arrancando cada um dos botões de sua camisa, revelando o peito nu, robusto e bastante atraente.

Ela afastou a camisa e levou seus lábios ao peito do rapaz, beijando-o desde ali até o fecho de suas calças. Ele enrijeceu-se, mas não se moveu – estava ainda fora de si. Pôs o punhal entre os dentes e com as mãos retirou vagarosamente as calças dele, olhando com curiosidade e interesse cada centímetro que se revelava até que visse apenas um par de pernas absolutamente nuas. E assim foi. A moça subiu as mãos escorregando-as pelas pernas do rapaz, beijou-lhe desde as coxas até o peito, e sentou-se desta vez sobre sua virilha. Aproximou seus lábios dos do rapaz, arrancando-lhe ânsias de um beijo, mas não cedeu. Segurou o seu rosto, virou-o, e abaixou-se sobre seu pescoço beijando o lóbulo de sua orelha. O rapaz suspirou, estremeceu, rendeu-se.

Súbito, a moça cravou seus dentes no pescoço ali disposto, sem rasgar-lhe a carne, apenas o bastante para fazê-lo se contorcer e abraçá-la forte, como se a quisesse consumir. Ora a apertava contra seu corpo, ora tentava a empurrar para longe de si, ainda estava fraco, e estava cada vez mais fraco, porém, desejava-a cada vez mais. A moça entrelaçou seus dedos pelo meio dos cabelos do rapaz, segurando-os com força, e a outra mão cravando as unhas em suas costas.

Quando finalmente soltou o rapaz, este caiu sobre a cama, sem forças. A moça, por sua vez, respirou fundo e levantou a cabeça, jogando os cabelos para trás. Tomou o punhal em suas mãos, colocou-o sobre o lado esquerdo do peito do rapaz e foi o perfurando lentamente, até a guarda. Com um ar solene vislumbrou o rapaz agonizando seus últimos suspiros até morrer. Retirou dele o punhal, com o mesmo desejo de quando o colocou, deixando o sangue escorrer, manchando a camisa e os lençóis mau-cheirosos.

O vento ainda uivava pelas frestas da janela, agora mais forte e congelante. A moça limpou seu punhal, sentada na beira da cama velha com os olhos saciados e a boca ainda mais vermelha. E ali ficou por um bom tempo, envolta por uma atmosfera que cheirava a mofo, bolor, ácaro, jornal molhado, madeira podre, narcisos amarelos e sangue... frescos.

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