segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Vento do Outono




Faz tempo que estou aqui, mas parece que nenhum tempo passou e nenhum sol nasceu ou morreu em qualquer ponto deste horizonte, tão pouco lua alguma subiu ao mais alto céu e regeu com sua luz o triste canto dos lobos, e nesse mesmo céu nenhuma estrela brilhou. Mas eu bem que vi os dias nascerem e morrerem um a um, e vi a noite invadir o céu e a vi fenecer, não só vi como senti o brilho da lua em seu auge e me encantei com brilho das estrelas, e ouvi o canto dos lobos.
O fato é que simplesmente nada têm tanto valor quanto tinha antes, são apenas folhas secas caídas ao chão sendo arrastadas pelo impiedoso vento do outono, que faz a questão de não deixar nada para trás. A única coisa que ele feliz ou infelizmente não leva é esta minha memória, estas minhas lembranças. Que me mantêm viva e ao mesmo tempo me fazem desfalecer, segundo a segundo. Que me fazem ser o que eu sou realmente e me dizem como eu deveria ser, como deveria ter sido, tudo.
O que mais me faz falta são os olhos, o brilho e a profundidade que eles possuíam e tudo o que me faziam ver. Meu mundo perdeu sua cor, perdeu seu brilho, perdeu seu contraste, perdeu seu foco, perdeu a sua virtude e seu sentido. E eu me perdi em algum lugar das lembranças que o vento não quis me roubar, e me encontrei nas íris que já não querem me fitar, e tampouco estão sob o alcance dos meus olhos.
A solidão nada tem haver com saudade, a saudade, porém, tudo tem haver com solidão. Eu sinto a saudade circulando em minhas veias, penetrando e se tornando meu própio sangue, a solidão cerca o meu corpo para me protege da humanidade, pois eu quero apenas estar aqui com as únicas coisas que o vento deixou para mim - minhas lembranças.
Espero que lembranças aqueçam a alma, pois já faz frio.




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