“Certa noite, quando a lua se encolhia debaixo de espessas nuvens negras, eu chorava em meu quarto escuro envolta pela solidão. Eu queria um jeito de fugir dali, um jeito de sair de mim mesma. Foi aí que ele apareceu pela primeira vez. Eu mal o vi na penumbra, ele sentou-se ao meu lado na cama, enxugou minhas lágrimas e sussurrou ao pé do meu ouvido ‘Abra os olhos, minha pequena’ e eu o obedeci.
Sobre nós havia um céu imenso com incontáveis estrelas, eu me perguntava como eu podia fechar os olhos em meu quarto e os abrir em outro lugar, e então eu notei que o chão não estava lá. Eu estava suspensa no ar com um céu inteiro ao meu redor. Ele segurou a minha mão e sussurrou novamente com sua voz de vento ‘Preciso que confie em mim’ eu assenti fazendo um sinal com a cabeça estudando pela primeira vez a sua feição. Ele tinha um rosto de traços retos e finos, o cabelo negro-azulado dançava como se uma brisa mansa o acariciasse permanentemente embora não houvesse nenhuma corrente de ar ali, e ao mesmo tempo contrastava-se com a pele pálida e delicada. E seus olhos eram um par de estrelas dentro de um mar negro, e quanto mais eu olhava dentro de seus olhos mais distantes pareciam as estrelas e, quanto mais distantes elas ficavam mais eu me perdia neles. Ele me envolveu com o seu grande sobretudo feito da própria escuridão, eu senti seus braços me envolverem e meu corpo aquecer enquanto eu fechava os olhos e deleitava-me naquele momento. Eu abri os olhos novamente e estava tudo escuro, não existia céu nem chão. Eu flutuava em meio ao nada.
Ele surgiu por detrás de mim, esticou a mão para o nada e moveu-a como se afastasse uma grande cortina e neste momento uma grande luz surgiu, uma luz que me fez virar o rosto e cerrar os olhos, e com eles entreabertos eu vi um mundo inteiro sendo desenhado ao nosso redor, quando meus olhos se acostumaram com a luz eu notei que estávamos no meio de um grande campo de flores azuis que se estendia até um grande conjunto de montanhas que sustentavam o céu mais lindo que já se viu, um céu que vinha de um azul e ia caindo até o horizonte num vermelho-sangue, com estrelas que acabavam de nascer. ‘Venha, minha pequena, há muito para lhe mostrar’ disse ele apontando a direção entre as flores, que num ato majestoso abriu-nos um longo caminho até uma grande árvore no fim de um penhasco. Era uma longa caminhada, sem duvidas, mas demos três passos e já estávamos lá. A árvore tinha tronco e galhos cor púrpura, sendo que o tronco era bem escuro e ia clareando conforme os galhos se estendiam para todos os lados com folhas turquesinas, as suas flores tinham cor de vinho tinto e um perfume incrível, seus frutos eram semelhantes ao pêssego, mas eram dourados. ‘Tenho um presente para você!’ disse colocando a mão direita dentro do casaco e só no fim eu percebi que, na verdade, ele colocava a sua mão dentro de seu peito e arrancou de lá seu coração ainda pulsando e com o sangue dele escorrendo, eu fiquei assustada e levei as mãos aos lábios retendo um grito, e então eu olhei melhor. O sangue que dele escorria para ele voltava, como se o tempo estivesse em regresso, mas não estava. O coração ainda batia e sugava todo o sangue que dele saia, o meu rapaz cobriu-o com a outra mão cordialmente e, me mostrou, era uma corrente de prata com um delicado pingente do rubi mais vermelho que já se viu, lapidado por mãos de um anjo no formato de um coração. ‘Este é o meu coração... – disse colocando a corrente em meu pescoço – e agora ele é seu. E tudo isso será seu se concordar em vir morar comigo. Dar-lhe-ei três dias e duas noites parar pensar, na terceira noite terá que ter decidido. Se não quiser ficar comigo, tira do pescoço o colar que lhe dei, e o coloque sob a cama antes de dormir. Se aceitar fugir de seu mundo comigo, na terceira noite se deitará assim que a ultima estrela brilhar no céu com o meu coração em suas mãos’.
Aproximou de mim o seu rosto pálido e beijou-me ternamente com seus lábios macios, eu o amava. Senti uma luz em meus olhos e quando os abri os raios do sol penetravam a janela de meu quarto, antes que eu pudesse pensar em ‘Sonho’ eu notei o delicado colar em meu pescoço com o rubro rubi.
Passaram-se três dias e duas noites. E na terceira noite eu esperei ansiosa pela ultima estrela do céu. Assim que ela apareceu, eu o ouvi ‘Confie em mim, minha pequena’ como o vento batendo na janela.”
Ela deitou-se em sua cama com o delicado Rubi em suas mãos, fechou os olhos e sonhou. Sonhou um sonho do qual nunca mais voltou.