sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Desespero

As coisas não iam bem, mas ela achava quase injusto assumir isto. Ela partilhava de sentimentos que ela mal podia definir, seus membros doíam e ela não havia movido um músculo sequer. O travesseiro engolindo as suas mágoas, as cobertas abafando sua dor. Gritos ensaiados, quase uivos, escorriam dos cantos de seus lábios, mudos. A tristeza latejava em suas têmporas, e o delírio espreitava sua solidão. Afogou-se em seus soluços, despiu-se em suas lágrimas, caído o corpo sobre seus medos... fechou sonolenta as suas pálpebras.


Conheceu, gelou, enrijeceu, chorou, doeu, lastimou, silenciou, adormeceu...


“Descansa, minha pequena, nos braços de Morpheus... enquanto ainda durar a sua areia.”


R.N.H.

sábado, 12 de março de 2011

O Príncipe Sapo

Se procuras teu príncipe encantado

Que em uma maldição se perdeu

De homem a sapo fora transformado

E este sapo não sou eu


De encantado nada tenho - Sei bem

Que dizem-me asqueroso e patético

Diferente de teu príncipe que tem

Olhos azuis e corpo atlético


Eu não percorro a galopes buscando

O encontro corajoso com meu amor proibido

Eu amo em segredo a Lua, olhando

Seu brilho no triste lago refletido


Quisera eu ser teu sapo - E outrora

Teu nobre príncipe encantado - E então iria

Fazer-te feliz para sempre embora

Sabendo que jamais me amarias


Posso ser um sapo de um triste lago

Posso não ser encantado, nem príncipe então

Sinto muito, linda donzela, não sou teu amado

Sou o Príncipe dos Sapos, o de nobre coração


Este poema foi escrito em algum dia perdido de 2008 durante uma aula chata de quimica.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Narcisos

Entreabriu os olhos, fraco demais para perceber onde exatamente jazia o seu corpo. A vista ainda embaçada e confusa ia desenhando o ambiente esfumaçado com cores mortas, uma parede com a pintura gasta e encardida, uma porta velha de madeira que havia sido pintada com um verde escolhido com muito mau gosto, uma lâmpada com a luz fraca no meio do cômodo suspensa por um fio elétrico, o ambiente cheirava a mofo, bolor, ácaro, jornal molhado, madeira podre e narcisos amarelos... frescos.

A única janela que se dispunha no ambiente estava coberta com tabuas mal pregadas e corroídas por cupins, uma delas dependia sobre as outras a ponto de cair, os vidros estavam quebrados ou então nem existiam mais, talvez apenas uns resquícios de sua existência num passado aparentemente distante. O vento uivava entre as frestas das madeiras, manso, frio e solene.

Por fim, avistou ao seu lado uma moça, que deveria ter notado há tempos. Ela estava de joelhos sobre o assoalho de madeira úmida e podre, descansava as mãos sobre o peito segurando um punhal prateado, cabisbaixa com os cabelos lisos dançando ao embalo do vento que de quando em quando vinha meter-se em suas madeixas negras. Olhos fechados, pele pálida, boca enrubescida.

A moça levantou-se, desabotoou a sobreveste deixando-a deslizar sobre o seu corpo até cair aos seus pés. Os cabelos caiam sobre os ombros nus, o torso cingido por um espartilho negro, a virilha ornada por um delicado lingerie de renda, nas mãos... o punhal. Aproximou-se com astúcia, sentando-se sobre as coxas do rapaz, que por sua vez estremeceu. Com auxilio do punhal, a moça foi arrancando cada um dos botões de sua camisa, revelando o peito nu, robusto e bastante atraente.

Ela afastou a camisa e levou seus lábios ao peito do rapaz, beijando-o desde ali até o fecho de suas calças. Ele enrijeceu-se, mas não se moveu – estava ainda fora de si. Pôs o punhal entre os dentes e com as mãos retirou vagarosamente as calças dele, olhando com curiosidade e interesse cada centímetro que se revelava até que visse apenas um par de pernas absolutamente nuas. E assim foi. A moça subiu as mãos escorregando-as pelas pernas do rapaz, beijou-lhe desde as coxas até o peito, e sentou-se desta vez sobre sua virilha. Aproximou seus lábios dos do rapaz, arrancando-lhe ânsias de um beijo, mas não cedeu. Segurou o seu rosto, virou-o, e abaixou-se sobre seu pescoço beijando o lóbulo de sua orelha. O rapaz suspirou, estremeceu, rendeu-se.

Súbito, a moça cravou seus dentes no pescoço ali disposto, sem rasgar-lhe a carne, apenas o bastante para fazê-lo se contorcer e abraçá-la forte, como se a quisesse consumir. Ora a apertava contra seu corpo, ora tentava a empurrar para longe de si, ainda estava fraco, e estava cada vez mais fraco, porém, desejava-a cada vez mais. A moça entrelaçou seus dedos pelo meio dos cabelos do rapaz, segurando-os com força, e a outra mão cravando as unhas em suas costas.

Quando finalmente soltou o rapaz, este caiu sobre a cama, sem forças. A moça, por sua vez, respirou fundo e levantou a cabeça, jogando os cabelos para trás. Tomou o punhal em suas mãos, colocou-o sobre o lado esquerdo do peito do rapaz e foi o perfurando lentamente, até a guarda. Com um ar solene vislumbrou o rapaz agonizando seus últimos suspiros até morrer. Retirou dele o punhal, com o mesmo desejo de quando o colocou, deixando o sangue escorrer, manchando a camisa e os lençóis mau-cheirosos.

O vento ainda uivava pelas frestas da janela, agora mais forte e congelante. A moça limpou seu punhal, sentada na beira da cama velha com os olhos saciados e a boca ainda mais vermelha. E ali ficou por um bom tempo, envolta por uma atmosfera que cheirava a mofo, bolor, ácaro, jornal molhado, madeira podre, narcisos amarelos e sangue... frescos.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pietro Pau e Pedra

Era uma vez Pietro Pau e Pedra montado em seu cavalo, enfiado em seu casaco com o olhar no horizonte. Agora o frio era congelante, Pietro Pau e Pedra brincava com o bigode e cantarolava uma canção.


"Tik Tik Nu Du voa pelos ares

e com o bico vai rasgando o alto céu, o-ô

Tik TIk Nu Du, flamejantes olhares

penas incandescentes iluminam o vôo

Tik Tik Nu Du sabe bem

e só o vento é quem entende o seu trajeto"


Eram duas vezes e lá vai Pietro Pau e Pedra montado em seu cavalo, enfiado em seu casaco, o olhar no horizonte e na boca uma canção. Comida, água e rifle, bússola, canivete e corda - Tik Tik Nu Du na mira. Pietro Pau e Pedra, olhos atentos, e o céu ainda vazio. Tik Tik Nu Du no fim do horizonte, colorindo o céu com o vermelho-fogo do crepúsculo vespertino.

Eram três vezes e lá se foi Pietro Pau e Pedra montado em seu cavalo, enfiado em seu casaco, o olhar no horizonte e na boca uma canção. Comida, água e rifle, bússola, canivete e corda - Tik Tik Nu Du na mira. Pietro Pau e Pedra, caçador, apaixonado pelas penas flamejantes de Tik Tik Nu Du. A longa caça ao inalcançável fulgor eterno de Tik Tik Nu Du.

Era uma última vez, a noite veio e não mais voltou.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sonho

“Certa noite, quando a lua se encolhia debaixo de espessas nuvens negras, eu chorava em meu quarto escuro envolta pela solidão. Eu queria um jeito de fugir dali, um jeito de sair de mim mesma. Foi aí que ele apareceu pela primeira vez. Eu mal o vi na penumbra, ele sentou-se ao meu lado na cama, enxugou minhas lágrimas e sussurrou ao pé do meu ouvido ‘Abra os olhos, minha pequena’ e eu o obedeci.

Sobre nós havia um céu imenso com incontáveis estrelas, eu me perguntava como eu podia fechar os olhos em meu quarto e os abrir em outro lugar, e então eu notei que o chão não estava lá. Eu estava suspensa no ar com um céu inteiro ao meu redor. Ele segurou a minha mão e sussurrou novamente com sua voz de vento ‘Preciso que confie em mim’ eu assenti fazendo um sinal com a cabeça estudando pela primeira vez a sua feição. Ele tinha um rosto de traços retos e finos, o cabelo negro-azulado dançava como se uma brisa mansa o acariciasse permanentemente embora não houvesse nenhuma corrente de ar ali, e ao mesmo tempo contrastava-se com a pele pálida e delicada. E seus olhos eram um par de estrelas dentro de um mar negro, e quanto mais eu olhava dentro de seus olhos mais distantes pareciam as estrelas e, quanto mais distantes elas ficavam mais eu me perdia neles. Ele me envolveu com o seu grande sobretudo feito da própria escuridão, eu senti seus braços me envolverem e meu corpo aquecer enquanto eu fechava os olhos e deleitava-me naquele momento. Eu abri os olhos novamente e estava tudo escuro, não existia céu nem chão. Eu flutuava em meio ao nada.

Ele surgiu por detrás de mim, esticou a mão para o nada e moveu-a como se afastasse uma grande cortina e neste momento uma grande luz surgiu, uma luz que me fez virar o rosto e cerrar os olhos, e com eles entreabertos eu vi um mundo inteiro sendo desenhado ao nosso redor, quando meus olhos se acostumaram com a luz eu notei que estávamos no meio de um grande campo de flores azuis que se estendia até um grande conjunto de montanhas que sustentavam o céu mais lindo que já se viu, um céu que vinha de um azul e ia caindo até o horizonte num vermelho-sangue, com estrelas que acabavam de nascer. ‘Venha, minha pequena, há muito para lhe mostrar’ disse ele apontando a direção entre as flores, que num ato majestoso abriu-nos um longo caminho até uma grande árvore no fim de um penhasco. Era uma longa caminhada, sem duvidas, mas demos três passos e já estávamos lá. A árvore tinha tronco e galhos cor púrpura, sendo que o tronco era bem escuro e ia clareando conforme os galhos se estendiam para todos os lados com folhas turquesinas, as suas flores tinham cor de vinho tinto e um perfume incrível, seus frutos eram semelhantes ao pêssego, mas eram dourados. ‘Tenho um presente para você!’ disse colocando a mão direita dentro do casaco e só no fim eu percebi que, na verdade, ele colocava a sua mão dentro de seu peito e arrancou de lá seu coração ainda pulsando e com o sangue dele escorrendo, eu fiquei assustada e levei as mãos aos lábios retendo um grito, e então eu olhei melhor. O sangue que dele escorria para ele voltava, como se o tempo estivesse em regresso, mas não estava. O coração ainda batia e sugava todo o sangue que dele saia, o meu rapaz cobriu-o com a outra mão cordialmente e, me mostrou, era uma corrente de prata com um delicado pingente do rubi mais vermelho que já se viu, lapidado por mãos de um anjo no formato de um coração. ‘Este é o meu coração... – disse colocando a corrente em meu pescoço – e agora ele é seu. E tudo isso será seu se concordar em vir morar comigo. Dar-lhe-ei três dias e duas noites parar pensar, na terceira noite terá que ter decidido. Se não quiser ficar comigo, tira do pescoço o colar que lhe dei, e o coloque sob a cama antes de dormir. Se aceitar fugir de seu mundo comigo, na terceira noite se deitará assim que a ultima estrela brilhar no céu com o meu coração em suas mãos’.

Aproximou de mim o seu rosto pálido e beijou-me ternamente com seus lábios macios, eu o amava. Senti uma luz em meus olhos e quando os abri os raios do sol penetravam a janela de meu quarto, antes que eu pudesse pensar em ‘Sonho’ eu notei o delicado colar em meu pescoço com o rubro rubi.

Passaram-se três dias e duas noites. E na terceira noite eu esperei ansiosa pela ultima estrela do céu. Assim que ela apareceu, eu o ouvi ‘Confie em mim, minha pequena’ como o vento batendo na janela.”

Ela deitou-se em sua cama com o delicado Rubi em suas mãos, fechou os olhos e sonhou. Sonhou um sonho do qual nunca mais voltou.