terça-feira, 31 de julho de 2012

Sobre inspiração e grandes coisas.

Em que você acredita?

Houve uma época que eu tinha uma teoria sobre inspiração, sobre escrever. Era algo como um milhão de ideias, palavras, contos, historias e sonhos flutuando sobre nossas cabeças, como almas que não encontraram o descanso eterno e continuaram a vagar por este mundo, ou apenas almas felizes, reluzentes e teimosas que insistiram em ficar para contar algo muito importante para o mundo, ou para alguém. Esses espectros luminosos e, na maioria das vezes, invisíveis, ficam por ali, flutuando sobre a cabeça de todas as pessoas no mundo. Então algumas pessoas pensam "Tem algo a ver com a vida, algo sobre existência, vida e morte. Algo sobre vidas uníssonas e corações descompassados, algo sobre estar no lugar certo e sobre perder a hora", mas não sabem o que quer dizer e tudo o que conseguem relatar sobre parte dessa experiencia é "A vida é complicada". Às vezes, enquanto se penduram no metrô ignorando a existência das pessoas ao seu redor, imaginam coisas, situações ou até mesmo "sonham acordados", começam a pensar sobre a vida ou sobre qualquer outra coisa mais profundamente e então as portas se abrem para a estação, elas desembarcam e se perguntam "Em que eu estava pensando mesmo?". O que quero dizer é que todas essas coisas estão ali para todos, ideias, palavras, contos, historias e sonhos, mas nem todos conseguem alcança-los, alguns os dispersam, os assustam como quem, em uma pescaria, joga pedras n'água e afasta os peixes. Há quem os evite, quem os afaste e insista em permanecer na "realidade" que ele próprio forjara. E é bem aqui que escritores, sonhadores e contadores de historias se distinguem do resto do mundo. Alguns apenas ouvem essas mórbidas e doces vozes, como quem escuta o vento cantando nas frestas das janelas e galhos de arvores, ou os batimentos cardíacos sob a caixa torácica da pessoa amada enquanto aninha-se em seus braços e sonha. Outros se precisam traçar um longo caminho de paciência e zelo até que possa ouvir o que tem de ser escrito. Alguns ouvem, entendem e escrevem, outros seguem o que é dito como em um ditado, e há outros que apenas escrevem, sem nem mesmo ouvir direito. Algumas pessoas simplesmente ignoram, outras escrevem, contam histórias e sonham.
Fazia algum tempo que eu não ouvia esse tipo de coisa, não assim. Comigo funciona como uma especie de melancolia que se espalha docemente desde o âmago e se alastra até minhas mãos, como se algo novo corresse em minhas veias. Geralmente eu preciso de musica e solidão, e eu não ouço muito, a maior parte mesmo eu sinto, vou apenas seguindo e então eu sei que estou no caminho certo.
Sobre livros, eu não penso que alguém precise ter o livro escrito em algum lugar da cabeça, mas que precisa estar pronto para escrever o livro. Eu poderia ter derramado algumas centenas de paginas anos atrás e chama-las de "livro", mas não seria o mesmo. Escrever não é apenas juntar letras e tramar destinos e historias particulares, é bem mais que isso na verdade. Eu posso sentir o até-então-apelidado-de-Flor-de-Lis crescendo em mim conforme eu me torno apta a escrevê-lo. Creio que depois do primeiro será mais fácil, e como o tempo isso transcorrerá naturalmente.
Às vezes eu sinto que existe algo grande em meu Destino, como se eu intimamente fizesse parte de algo maior que eu, algo que realmente vale a pena. É uma especie de desassossego que me impulsiona a uma especie de ápice, como quando depois de cantar o refrão de uma musica, quando este já está chegando ao fim, você sente que o guitarrista fará um solo que será capaz de fazer você levitar e por um segundo poderá ver através de um feixe de luz, ou algo muito parecido, um grande proposito na sua vida. Eu estou sempre falando de grandes coisas, grandes pessoas, grandes feitos e grandes sonhos. Estou sempre na expectativa de algo grande acontecer bem diante dos meus olhos, ou que eu faça parte disso. Quando eu ando por aí eu me pego pensando no quanto é estranho saber que cada uma das pessoas que passam por mim tem sua própria vida, uma vida que eu não tenho a menor ideia. E você me diz "Mas todos no mundo tem sua própria vida, isso é normal, não há nada de estranho em viver", eu ainda acho que o "viver" foi muito banalizado devido a monotonia, tornou-se comum porque foi sempre assim, todos tem sua própria vida. Mas pense mais profundamente, olhe no rosto de cada pessoa que cruzar seu caminho um dia desses, pense em tudo o que não sabe sobre elas, em toda uma vida que você desconhece, milhares de historias que nunca lhe serão contadas, milhares de sentimentos e pensamentos rodando e rodando o tempo inteiro sem que você saiba. Cada uma das pessoas que cruza o seu caminho é capaz de sentir, pensar e sonhar. E isso é algo tão profundamente louco. Você está aqui lendo isso e tem bilhões de pessoas lá fora fazendo um bilhão de coisas diferentes. Algumas sorriem, outras choram, algumas pessoas esqueceram a vida no automático, outras estão amando e sentindo as coisas mais loucas que se existe na vida. Algumas brigam e praguejam, outras andam de mãos dadas e declaram amores eternos, outras se recolhem solitárias no conforto de seus quartos e algumas sentem como se fosse a primeira vez o toque da pessoa amada. Acho que eu poderia ficar aqui o dia inteiro sem me fazer entender plenamente. O que eu quero dizer é que há algo grande e assustador nisso de "vida própria", e o estranho mesmo é dizer que sempre que eu saio por ai acabo me distraindo um pouco e pensando sobre isso tudo. Às vezes esboço curiosidade e fascinação sobre alguns humanos, alguns parecem tristes e eu fico tentando decifrar seus pensamentos ou fazendo-de-conta que eu posso mesmo fazer isso, vejo alguns casais felizes e imagino o quanto eles se amam, vejo idosos e penso em todas as historias que eles poderiam contar, vejo crianças correndo, brincando e murmurando coisas e fico imaginando em que mundo elas estariam, qual seria a historia, em que fantasia teriam se metido. Por vezes eu sinto algo de fantástico na humanidade, apesar de existirem exemplares de índole lastimável. Acho que eu apenas tenho mania de ver a grandeza das coisas, ou inventar grandezas para as coisas.

Não tenho certeza se eu escrevi o que deveria ser escrito, mas me sinto melhor agora, como um pássaro que levantou voo a pouco e sente as asas cortando o céu. Plenitude.

Senti falta da minha gata andando atrás de mim pela casa e afofando meu colo para se deitar.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Um dia desses...

"O seu melhor psicólogo" disse o estranho...

Na verdade eu nem tenho tempo para estar aqui, e nem deveria. Tenho uma pilha de trabalhos para fazer em cima da mesa, uma prova amanhã e alguém precisando de mim do outro lado da linha. Será que eu perdi o controle de tudo? - acho que não.
Acho que a minha poesia se foi. Às vezes ela volta, mas foge assustada quando tento tocá-la e trazê-la ao meu íntimo. Gostaria de tê-la agora e dizer uma daquelas coisas que me fazem chorar só de pensar em dizer, uma daquelas coisas tão transbordantes de sentimentos que qualquer um se comoveria ao ler ou ouvir. Sinto falta dos versos ou da musicalidade que sentia na prosa. Há um livro em mim brotando aos poucos, temo não ser digna de escrevê-lo, mas o farei mesmo assim, será um presente, o maior dos presentes ao maior dos amores.
Às vezes eu me pergunto se ele realmente tem noção do que representa para mim, por vezes parece desconhecer. Mas não é culpa dele, às vezes as coisas são tão imensa e infinitamente grandes que sequer podemos vê-las. Principalmente o Amor, que não é um muro, uma barreira ou um monumento tangível. Como saber onde ele começa e onde termina? Tal qual o Universo em si, ele é tão grande, tão tão grande que às vezes nem lembramos que ele está lá do lado de fora do céu. Quem sai pelas ruas percorrendo grandes distancias pensando no quanto continua estático lá do lado de fora do grão?
O fato é: existe um alguém lá fora que está triste, em parte por minha causa, em parte por causa da vida, mas triste. E eu estou aqui me indagando se eu devo esperar o seu tempo, se eu devo sair correndo em direção a ele, se devo acordá-lo e dizer o quanto eu o amo e torcer para que ele sinta o que eu sinto e entenda o que eu quero dizer. Se existe ainda qualquer poesia em mim, ela está justamente onde ele está. E ele é a minha mais linda poesia, versos livres, soltos, flutuantes.
Eu sou uma pessoa feita de sonhos, e ele me torna real.

"É como uma dança entre duas galáxias, que no fim, ao se colidirem, formam uma", disse o meu coração.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Desespero

As coisas não iam bem, mas ela achava quase injusto assumir isto. Ela partilhava de sentimentos que ela mal podia definir, seus membros doíam e ela não havia movido um músculo sequer. O travesseiro engolindo as suas mágoas, as cobertas abafando sua dor. Gritos ensaiados, quase uivos, escorriam dos cantos de seus lábios, mudos. A tristeza latejava em suas têmporas, e o delírio espreitava sua solidão. Afogou-se em seus soluços, despiu-se em suas lágrimas, caído o corpo sobre seus medos... fechou sonolenta as suas pálpebras.


Conheceu, gelou, enrijeceu, chorou, doeu, lastimou, silenciou, adormeceu...


“Descansa, minha pequena, nos braços de Morpheus... enquanto ainda durar a sua areia.”


R.N.H.

sábado, 12 de março de 2011

O Príncipe Sapo

Se procuras teu príncipe encantado

Que em uma maldição se perdeu

De homem a sapo fora transformado

E este sapo não sou eu


De encantado nada tenho - Sei bem

Que dizem-me asqueroso e patético

Diferente de teu príncipe que tem

Olhos azuis e corpo atlético


Eu não percorro a galopes buscando

O encontro corajoso com meu amor proibido

Eu amo em segredo a Lua, olhando

Seu brilho no triste lago refletido


Quisera eu ser teu sapo - E outrora

Teu nobre príncipe encantado - E então iria

Fazer-te feliz para sempre embora

Sabendo que jamais me amarias


Posso ser um sapo de um triste lago

Posso não ser encantado, nem príncipe então

Sinto muito, linda donzela, não sou teu amado

Sou o Príncipe dos Sapos, o de nobre coração


Este poema foi escrito em algum dia perdido de 2008 durante uma aula chata de quimica.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Narcisos

Entreabriu os olhos, fraco demais para perceber onde exatamente jazia o seu corpo. A vista ainda embaçada e confusa ia desenhando o ambiente esfumaçado com cores mortas, uma parede com a pintura gasta e encardida, uma porta velha de madeira que havia sido pintada com um verde escolhido com muito mau gosto, uma lâmpada com a luz fraca no meio do cômodo suspensa por um fio elétrico, o ambiente cheirava a mofo, bolor, ácaro, jornal molhado, madeira podre e narcisos amarelos... frescos.

A única janela que se dispunha no ambiente estava coberta com tabuas mal pregadas e corroídas por cupins, uma delas dependia sobre as outras a ponto de cair, os vidros estavam quebrados ou então nem existiam mais, talvez apenas uns resquícios de sua existência num passado aparentemente distante. O vento uivava entre as frestas das madeiras, manso, frio e solene.

Por fim, avistou ao seu lado uma moça, que deveria ter notado há tempos. Ela estava de joelhos sobre o assoalho de madeira úmida e podre, descansava as mãos sobre o peito segurando um punhal prateado, cabisbaixa com os cabelos lisos dançando ao embalo do vento que de quando em quando vinha meter-se em suas madeixas negras. Olhos fechados, pele pálida, boca enrubescida.

A moça levantou-se, desabotoou a sobreveste deixando-a deslizar sobre o seu corpo até cair aos seus pés. Os cabelos caiam sobre os ombros nus, o torso cingido por um espartilho negro, a virilha ornada por um delicado lingerie de renda, nas mãos... o punhal. Aproximou-se com astúcia, sentando-se sobre as coxas do rapaz, que por sua vez estremeceu. Com auxilio do punhal, a moça foi arrancando cada um dos botões de sua camisa, revelando o peito nu, robusto e bastante atraente.

Ela afastou a camisa e levou seus lábios ao peito do rapaz, beijando-o desde ali até o fecho de suas calças. Ele enrijeceu-se, mas não se moveu – estava ainda fora de si. Pôs o punhal entre os dentes e com as mãos retirou vagarosamente as calças dele, olhando com curiosidade e interesse cada centímetro que se revelava até que visse apenas um par de pernas absolutamente nuas. E assim foi. A moça subiu as mãos escorregando-as pelas pernas do rapaz, beijou-lhe desde as coxas até o peito, e sentou-se desta vez sobre sua virilha. Aproximou seus lábios dos do rapaz, arrancando-lhe ânsias de um beijo, mas não cedeu. Segurou o seu rosto, virou-o, e abaixou-se sobre seu pescoço beijando o lóbulo de sua orelha. O rapaz suspirou, estremeceu, rendeu-se.

Súbito, a moça cravou seus dentes no pescoço ali disposto, sem rasgar-lhe a carne, apenas o bastante para fazê-lo se contorcer e abraçá-la forte, como se a quisesse consumir. Ora a apertava contra seu corpo, ora tentava a empurrar para longe de si, ainda estava fraco, e estava cada vez mais fraco, porém, desejava-a cada vez mais. A moça entrelaçou seus dedos pelo meio dos cabelos do rapaz, segurando-os com força, e a outra mão cravando as unhas em suas costas.

Quando finalmente soltou o rapaz, este caiu sobre a cama, sem forças. A moça, por sua vez, respirou fundo e levantou a cabeça, jogando os cabelos para trás. Tomou o punhal em suas mãos, colocou-o sobre o lado esquerdo do peito do rapaz e foi o perfurando lentamente, até a guarda. Com um ar solene vislumbrou o rapaz agonizando seus últimos suspiros até morrer. Retirou dele o punhal, com o mesmo desejo de quando o colocou, deixando o sangue escorrer, manchando a camisa e os lençóis mau-cheirosos.

O vento ainda uivava pelas frestas da janela, agora mais forte e congelante. A moça limpou seu punhal, sentada na beira da cama velha com os olhos saciados e a boca ainda mais vermelha. E ali ficou por um bom tempo, envolta por uma atmosfera que cheirava a mofo, bolor, ácaro, jornal molhado, madeira podre, narcisos amarelos e sangue... frescos.