Sua cama parecia ser tão vazia que por mais que ele quisesse se levantar e andar de um lado para o outro naquele quarto escuro, não conseguiria, a cama o puxava para si. Porém, ele não era capaz de fechar os olhos e dormir - ele ainda pensava na garota - e ele só permanecia de olhos fechados por um motivo: Ele a via claramente no lado de dentro de suas pálpebras, ela estava lá, e não ia embora. O Sono o desprezou naquela noite, e ele apenas se concentrava nas lembranças da garota; em seu vestido vermelho; em seus olhos verdes; em sua pele macia; em seus lábios... Sândalo!
Foi quando ele deu um pulo da cama, tão rápido e com tanta determinação que esta não teve tempo de fazê-lo mudar de ideia. Ele estava de pé ao lado cama ainda com os olhos fechados, aspirou o ar que o rodeava e então abriu os olhos de frente para a janela. A noite estava fria, úmida, escura... Vazia. As finas gotículas de chuva batiam contra o vidro da janela fazendo um barulho bom, as folhas se debatiam com o vento e uma lua prateada tentava sair de trás de uma nuvem. Ele fechou os olhos outra vez e aspirou mais uma vez o ar, virando-se para trás... era Sândalo. A porta o chamou com duas batidas delicadas e firmes. Ele foi até aporta, um passo por vez, mais duas batidas e... ele girou a maçaneta. Entrou por entre uma primeira pequena fresta da porta um ventinho gélido e perfumado, mais um pouco e, com a porta toda aberta, ele viu um vestido vermelho, olhos verdes e um perfume de Sândalo.
A mocinha tinha os cabelos e roupas molhados, ela tinha frio. Seus dois olhos verdes eram duas suplicas incansáveis de afeto, ela precisava estar ali mais do que precisava que o seu coraçãozinho continuasse batendo. A graça de seu rosto iluminou-se ao ver novamente o "ninguém", e no outro instante sua graça esmaeceu-se cabisbaixa e com uma voz de chuva murmurou.
"Eu não pude dormir. Não poderia sem o senhor, meu caro. Desde o momento em que eu me encontrei entre os teus braços eu soube que não conseguiria viver fora deles. Eu menti, pois uma vez te segui, por isto sei onde te recolhe o sono. No dia não estava escuro, nem chovendo. Eu demorei um pouco para me encontrar, mas eu me encontrei, e encontrei também ao senhor. E..."
O homem continuava mudo olhando para a mocinha, sem mover um músculo sequer, continuava em pé segurando a porta e fitando-a sem cessar. A mocinha virou seu rosto para a esquerda, como quando alguém percebe que teve uma má ideia e se lamente por ela em silêncio.
"Oh, céus! Como pude?", e suspirou profundamente, levantou as duas mãos e gesticulou um pouco enquanto gaguejava algumas silabas, até que finalmente conseguiu formar um frase - ou quase isso. "Eu não deveria ter..."
Ela teria dito "Eu não deveria ter vindo incomodar ao senhor, vou-me embora e juro-te que não serei impertinente uma outra vez", ou algo do gênero, mas a verdade é que ela sentiu que deveria parar a frase exatamente ali pois algo aconteceria. E a real verdade era que aquele homem não estava apenas parado em pé segurando a porta e fitando a mocinha, não! Uns diriam talvez que ele estivesse tomando coragem, porém, ele estava mesmo tentando se lembrar como se fazia. O olhar da garota perdeu-se nos olhos daquele homem enquanto falava com dificuldade as palavras que anunciariam a sua partida, porém ao perder-se, ela viu. E viu antes que acontecesse, pois ele sentiu antes que ela pudesse sentir. E como o romper de uma barreira, como uma invasão, como um assalto ou um sequestro, como uma bala perdida, como uma espada precisa, como um encontro casual, como um corpo em uns braços, como dois olhares que se cruzam infinitamente, como a vida e a morte... o não-ser daquele homem envolveu em seus braços os tecidos vermelhos e os cachos acastanhados da mocinha.
A mocinha esboçou um sorriso desajeitado, enquanto o homem com o corpo junto ao dela continuava sem muita facilidade em obter expressões precisas, ele apenas fechou os olhos enquanto sentia a mocinha nele e seu cheiro inconfundível... era Sândalo.



2 comentários:
Uhuu! Massa! Vou ler as outras 4 partes...
http://ofatorx.blogspot.com/
Você escreve muito bem
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