Esta noite eu não vou falar de minhas lágrimas, nem sobre o sutil canto dos lobos. Esta noite eu me esquecerei de mim e tentarei não chorar. Esta noite eu não vou sorrir - não vou porque não consigo - eu vou apenas deleitar-me na inércia. Esta noite eu vou olhar as estrelas e vou me distrair como o doce fulgor dos vagalumes, e não para me esquecer das coisas que eu prefiro não lembrar, mas para não me lembrar das coisas que não quero esquecer.
Só por esta noite eu não vou me perguntar o que devo fazer e nem vou procurar uma saída. E só desta vez eu não vou achar injustos os caminhos pelos quais meus pés andaram errantemente. Não vou me entristecer pelo repentino abandono de minha inspiração, não esta noite. Esta noite eu não vou falar para mim mesma todas as coisas que deveria dizer a todos, e não vou engraçar-me nos encantos da insônia quando as luzes se apagarem. Esta noite não vou dizer que foi tempo perdido e nem vou sonhar com um futuro feliz. Só por esta noite eu não vou ansiar por presença, abandonar-me-ei na solidão acre do vazio.
Esta noite nada farei, nada serei.
Esta noite será apenas o que tem sido todos os meus dias: Nada!


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